O silêncio também comunica: quem vai cobrar os pagamentos da imprensa de Valença?

Profissionais afirmam aguardar desde julho por pagamentos de serviços prestados à gestão municipal; enquanto notas fiscais seguem pendentes, silêncio de parte da própria imprensa local chama atenção
Há momentos em que o silêncio deixa de ser apenas ausência de palavras e passa a ser uma posição. Em Valença, uma situação envolvendo profissionais da imprensa que prestaram serviços à gestão municipal merece uma pergunta simples, mas necessária: por que tão pouca gente está cobrando?
Desde julho, profissionais que trabalharam para a gestão municipal afirmam aguardar o pagamento pelos serviços realizados. Os trabalhos foram executados e as notas fiscais foram emitidas. No entanto, segundo os relatos, os pagamentos de parte desses prestadores continuam pendentes.
O episódio se torna ainda mais preocupante diante de uma situação relatada nos bastidores: um profissional conseguiu receber porque teve a coragem de expor publicamente a cobrança nas redes sociais.
Se isso ocorreu dessa forma, a pergunta é inevitável: é preciso fazer barulho para receber por um serviço prestado ao poder público?
E quem prefere não se expor?
E os profissionais que cumpriram suas obrigações, emitiram suas notas fiscais e continuam esperando?
Ficam como?
A situação deveria provocar reação justamente entre aqueles que têm como uma de suas funções cobrar transparência do poder público: os profissionais de comunicação e os veículos de imprensa.
Mas onde está essa cobrança?
É muito fácil cobrar quando o problema atinge o outro. É confortável publicar denúncias, questionar secretarias, apontar atrasos e exigir explicações quando a situação está distante da própria realidade. O verdadeiro teste de independência acontece quando a cobrança precisa atingir quem mantém alguma relação institucional ou comercial com o veículo ou profissional.
E é exatamente nesse momento que o silêncio começa a incomodar.
Imprensa independente não pode escolher quando fiscalizar de acordo com conveniências. Se existe dinheiro público envolvido, prestação de serviço realizada e pagamentos pendentes, há interesse público suficiente para que sejam feitos questionamentos.
Não se está pedindo privilégio.
Não se está pedindo favor.
Está se cobrando aquilo que corresponde a um trabalho efetivamente realizado, desde que devidamente contratado, comprovado e documentado.
Por isso, a gestão municipal de Valença precisa apresentar esclarecimentos objetivos.
Quantos profissionais ou empresas de comunicação que prestaram serviços desde julho ainda aguardam pagamento?
Quais notas fiscais permanecem pendentes?
Por qual motivo ainda não foram pagas?
Existe algum impedimento administrativo?
Qual é a previsão para regularização?
E, principalmente: por que um profissional precisou ter a coragem de expor publicamente a situação para conseguir receber?
Essas perguntas não constituem perseguição política. São cobranças administrativas legítimas que qualquer imprensa verdadeiramente fiscalizadora deveria estar disposta a fazer.
Também é necessário questionar a própria categoria.
Cadê a coragem da imprensa de Valença para cobrar?
Se existem profissionais esperando pelo dinheiro de serviços já realizados, por que o assunto praticamente não aparece? Por que não existem cobranças públicas mais contundentes? Por que tanta cautela justamente quando o problema chega à porta de quem deveria fiscalizar?
A imprensa não pode querer ser chamada de independente apenas quando isso é conveniente.
Independência editorial se demonstra.
E se demonstra principalmente quando é preciso fazer uma pergunta desconfortável a quem está no poder.
Quem trabalhou deve receber. Quem emitiu sua nota fiscal tem o direito de saber em que situação está o pagamento. E quem administra recursos públicos tem o dever de oferecer transparência sobre suas obrigações.
A Prefeitura de Valença tem espaço e direito para apresentar sua versão, explicar eventuais entraves administrativos e informar quando os pagamentos serão realizados.
Mas permanecer sem respostas não resolve o problema.
E permanecer em silêncio também não deveria ser uma alternativa para a imprensa.
Porque, no final, fica uma pergunta que talvez seja ainda mais incômoda do que a própria dívida:
se a imprensa não consegue cobrar aquilo que é devido aos próprios profissionais, como poderá convencer a população de que terá coragem para cobrar o poder público quando os interesses em jogo forem ainda maiores?
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