Nilo Peçanha entre festas e esgoto: quando o espetáculo parece falar mais alto que o básico

Enquanto dados citados sobre saneamento expõem uma realidade preocupante, gestão municipal precisa explicar à população quais são suas prioridades e onde estão os investimentos capazes de mudar a situação
Em Nilo Peçanha, a população tem motivos de sobra para fazer uma pergunta incômoda à administração municipal: até quando festa e espetáculo terão mais visibilidade do que os problemas básicos enfrentados diariamente pelo cidadão?
Os dados apresentados são graves. Segundo os números citados do IBGE Cidades e do Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento (SNIS), apenas 31,5% dos domicílios possuem esgotamento sanitário adequado.
Se o indicador estiver atualizado e corretamente aplicado ao município, não estamos falando de um problema pequeno. Estamos diante de uma deficiência estrutural que deveria ocupar o centro das prioridades do poder público.
Enquanto isso, festas, eventos, estruturas e atrações ganham divulgação, palco e holofotes.
Ninguém está defendendo o fim das festas populares. Cultura movimenta a economia, gera renda e faz parte da identidade das cidades. Mas administrar um município não pode se resumir a produzir calendário festivo e divulgar grandes eventos enquanto uma parcela expressiva dos moradores ainda espera pelo básico.
Prefeitura não existe para administrar apenas aquilo que rende fotografia, vídeo, palco e aplauso. Existe principalmente para enfrentar aquilo que incomoda, custa caro, demora e muitas vezes fica debaixo da terra.
Rede de esgoto não rende a mesma imagem de um grande show. Tratamento de efluentes não produz multidão diante de um palco. Saneamento talvez não renda a mesma repercussão nas redes sociais.
Mas salva dinheiro público, protege o meio ambiente, melhora a saúde e devolve dignidade às famílias.
É justamente por isso que a situação de Nilo Peçanha exige explicações.
Onde estão os grandes investimentos em coleta e tratamento de esgoto? Qual é o planejamento da Prefeitura para ampliar a cobertura? Quanto foi efetivamente investido nos últimos anos? Quais obras estão contratadas? Quais comunidades serão atendidas? Qual é o cronograma? E, principalmente: quanto o município desembolsa com festas e eventos em comparação ao que investe diretamente em saneamento?
A gestão municipal deveria colocar esses números sobre a mesa.
Porque dinheiro público exige prioridade pública.
O problema se torna ainda mais grave quando pensamos nas comunidades rurais e populações mais vulneráveis. Para quem vive diariamente cercado pela precariedade sanitária, pouco importa o tamanho do palco montado na cidade se, depois que o último artista vai embora e as luzes se apagam, o esgoto continua sem destino adequado.
É preciso acabar com a lógica política de confundir entretenimento com desenvolvimento.
Uma cidade não se desenvolve porque realizou uma festa grande. Uma gestão não se torna eficiente porque contratou atrações, montou palco ou reuniu multidões.
Desenvolvimento se mede também pela água que chega à torneira, pelo esgoto que recebe destinação adequada, pela estrada que permite deslocamento, pela unidade de saúde que funciona e pela infraestrutura que alcança quem mora longe do centro.
O Brasil estabeleceu, no Novo Marco Legal do Saneamento, metas de universalização que apontam para 99% da população atendida com água potável e 90% com coleta e tratamento de esgoto até 2033.
O relógio está correndo.
Nilo Peçanha não pode chegar perto desse prazo ainda discutindo problemas elementares enquanto recursos públicos são direcionados para ações de impacto momentâneo sem que a população consiga perceber avanço semelhante na infraestrutura permanente.
E há outra questão que precisa ser enfrentada: relacionamento político só interessa à população quando produz resultado.
Ter proximidade com governos, parlamentares ou lideranças políticas não pode servir apenas para discursos, fotografias e palanques. Se a administração afirma possuir articulação política, então que essa influência seja transformada em convênios, projetos, máquinas trabalhando, redes sendo implantadas e comunidades recebendo saneamento.
A população não vive de articulação política. Vive dos resultados que ela deveria produzir.
Por isso, cobrar não é perseguição. Questionar gastos não é ser contra cultura. Perguntar onde está o saneamento não significa ser contra festas.
Significa exigir responsabilidade na definição das prioridades.
A Prefeitura de Nilo Peçanha tem a obrigação de responder objetivamente quais medidas estão sendo adotadas para modificar esse cenário e apresentar dados atualizados sobre investimentos, projetos e obras.
Porque, no final das contas, a realidade é simples e desconfortável:
o artista vai embora, o palco é desmontado, os fogos acabam e a festa termina.
O morador fica.
E, se não houver investimento sério em infraestrutura, o esgoto também.
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